Mundet: a história completa de um império da cortiça que moldou o Seixal e renasce hoje como património cultural
Mundet: a história completa de um império da cortiça que moldou o Seixal e renasce hoje como património cultural
A história da Mundet é uma das mais marcantes da indústria corticeira portuguesa e internacional. O seu percurso atravessa a Catalunha, os Estados Unidos, o México, o Canadá e, finalmente, Portugal, onde a fábrica do Seixal se tornou um dos maiores polos industriais do país. Hoje, o legado da Mundet renasce através do Upon Harbor Seixal Bay Hotel e do Ecomuseu Municipal do Seixal, que preservam a memória de um passado industrial transformado em futuro cultural.
1865 — As raízes catalãs da família Mundet
A história começa em Sant Antoni de Calonge, na Catalunha, quando Lorenzo Mundet i Coromias funda uma pequena fábrica de cortiça. O negócio nasce no ateliê do sogro, Josep Carbó, e rapidamente cresce, empregando cerca de 50 trabalhadores. A família — Lorenzo, Teresa Carbó e os filhos José (1869), Artur (1879) e Catalina (1885) — forma o núcleo que dará origem a um império corticeiro internacional.
1895–1905 — A expansão para a América
No final do século XIX, Nova Iorque torna‑se um centro industrial da cortiça. Em 1895, José Mundet emigra para os EUA e instala uma pequena fábrica no Brooklyn. Em 1897, o irmão Artur junta‑se ao projeto. A empresa passa a operar como L. Mundet & Sons, Inc.
A expansão continua:
- 1902 — José abre uma unidade industrial em Montreal, Canadá.
- 1902 — Artur funda uma fábrica de rolhas na Cidade do México.
- 1905 — A família adquire parte da Quinta dos Franceses, no Seixal, para instalar uma nova fábrica.
A Mundet torna‑se, assim, uma organização industrial transatlântica.
1905–1908 — A chegada ao Seixal e o início da operação portuguesa
A fábrica do Seixal é instalada em 1905, com acompanhamento direto de Artur Mundet. Em 1906, chegam ao Seixal Luíz Gubert i Capellà e Catalina Mundet, reforçando a gestão local.
Em 1908, a sociedade inicial dissolve‑se. Artur sai para se dedicar ao seu negócio de refrigerantes no México (Sidral Mundet). Nasce então a nova empresa L. Mundet & Son, Inc., com Lorenzo, José e Luíz Gubert como sócios.
1906–1920 — A fábrica do Seixal torna‑se um gigante industrial
Nos primeiros anos, a unidade do Seixal dedica‑se à compra, preparação e enfardamento de cortiça em prancha. Rapidamente evolui para:
- exportação de rolhas (a partir de 1906)
- produção de aparas e quadros de cortiça
- envio de matéria‑prima para fábricas nos EUA, Canadá e México
A localização estratégica — perto das zonas de montado, da ferrovia e do porto de Lisboa — torna o Seixal um ponto logístico ideal.
Em 1924, um folheto promocional afirma que metade da população da vila trabalhava na Mundet. A fábrica era o maior empregador do concelho.
1917–1930 — A expansão para Amora
Com o crescimento da produção, o espaço no Seixal torna‑se insuficiente. Em 1917, a Mundet arrenda uma antiga moagem a vapor em Amora, transformando‑a numa nova unidade industrial.
A partir de 1926, a aquisição de novas propriedades permite reorganizar e ampliar a fábrica de Amora. Em 1930, a Câmara Municipal homenageia a empresa ao renomear a antiga Rua Trás das Hortas para Rua Mundet.
A capacidade produtiva incluía:
- 5.000 kg de aparas por dia
- 560 metros de linhagem
- 1.383 kg de discos
- 8.100 kg de boias
- 64 grosas de palmilhas
1930–1959 — A fábrica como motor social e económico
No início da década de 1930, a fábrica de Amora empregava 572 trabalhadores, dos quais 278 eram mulheres e 102 menores. Em 1959, o número mantinha‑se elevado: 566 operários, praticamente toda a força laboral da freguesia.
A Mundet destaca‑se também pelo pioneirismo social:
- 1937 — Inaugura uma creche para filhos dos trabalhadores.
- 1943 — Abre um refeitório económico da FNAT.
- 1951 — Mais de 350 crianças frequentam as casas da infância da empresa.
- 1953 — A creche passa a funcionar como berçário e jardim‑de‑infância.
A Mundet era mais do que uma fábrica: era uma comunidade.
1920–1950 — A expansão nacional e internacional
Além das unidades do Seixal e Amora, a Mundet instala fábricas em:
- Montijo (Bela Vista e As Nascentes)
- Mora
- Vendas Novas
- Ponte de Sor
No estrangeiro, mantém operações nos EUA, Canadá e México, sob a designação Mundet Cork Corporation.
Produz:
- aglomerados expandidos
- isolamentos térmicos e acústicos
- revestimentos decorativos
- vedantes
- pavimentos e revestimentos de parede
A Mundet torna‑se uma referência mundial na cortiça.
Décadas de 1960–1980 — O declínio e o encerramento
Com a modernização industrial, a concorrência internacional e mudanças económicas, a Mundet entra em declínio. A atividade reduz‑se progressivamente até ao encerramento definitivo nas últimas décadas do século XX.
O vasto complexo industrial fica devoluto, mas mantém um valor patrimonial único.

Créditos. Câmara Municipal do Seixal
Século XXI — A transformação: do passado industrial ao futuro cultural
A Câmara Municipal do Seixal adquire o complexo e inicia um processo de requalificação. Hoje, o espaço renasce com dois pilares fundamentais:
1. Ecomuseu Municipal do Seixal – Núcleo da Mundet
Preserva a memória da fábrica, dos trabalhadores e da indústria corticeira.
2. Upon Harbor Seixal Bay Hotel
Um hotel contemporâneo que integra o legado industrial na sua arquitetura e storytelling, dando nova vida ao espaço.
A Mundet é agora um símbolo de regeneração urbana, onde história, cultura e hospitalidade se encontram.






Trackbacks & Pingbacks
[…] marcantes capítulos da história industrial portuguesa. Instalado no coração da antiga fábrica Mundet — outrora um dos maiores complexos corticeiros do país — o hotel transforma um legado […]
Comments are closed.